Pesquisadores do INCA utilizam tecnologia de ponta para mapear a interação das células tumorais e personalizar terapias, desafiando barreiras econômicas na América Latina.
Imagine tentar entender como uma cidade funciona observando apenas os seus habitantes, um a um, sem saber onde moram ou com quem interagem. Durante décadas, a ciência estudou o câncer assim. No entanto, uma nova geração tecnológica chamada transcriptômica espacial está mudando esse jogo ao revelar não apenas quais genes estão ativos, mas onde eles estão dentro do tecido doente.
O “Mapa” do Território Tumoral
Diferente das técnicas tradicionais, a transcriptômica espacial permite que cientistas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) observem o tumor em sua estrutura intacta. Isso é crucial porque o câncer não é uma massa uniforme; ele é heterogêneo. Saber a localização exata de cada célula ajuda a entender por que alguns pacientes respondem à quimioterapia e outros não.
Um estudo em curso no INCA exemplifica esse potencial: pesquisadores estão mapeando células de pacientes com câncer de ovário. Ao comparar quem responde bem ao tratamento com quem apresenta resistência, a tecnologia ajuda a identificar marcadores moleculares que podem, no futuro, ditar o manejo clínico personalizado.
A Ciência Nacional Contra a “Sub-representação”
Um dos grandes trunfos deste avanço é a soberania científica. A maioria dos dados genéticos mundiais vem de populações da Europa e dos Estados Unidos. No entanto, a população da América Latina possui características genéticas e adaptações ambientais únicas.
O grupo do INCA, em colaboração com institutos renomados como o Wellcome Sanger (Reino Unido), publicou recentemente um artigo na prestigiada revista Cell intitulado “Exploring Latin America cell by cell”. O trabalho defende a urgência de mapear a nossa própria ancestralidade para criar tratamentos que realmente funcionem para os latino-americanos.
Desafios: O Custo da Inovação
Apesar do brilho científico, a barreira econômica é real. O estudo aponta que:
- 93% dos pesquisadores veem o custo dos reagentes como a maior barreira.
- Na América Latina, os insumos chegam a custar o dobro do preço internacional.
- Apenas 6% dos cientistas da região conseguem gerar resultados experimentais próprios; a maioria (90%) ainda depende de dados públicos gerados no exterior.
O Futuro da Precisão
Para os pesquisadores Patrícia Possik, João Paulo Viola e Mariana Boroni, o caminho para superar essas barreiras passa por financiamento equitativo e infraestrutura compartilhada (biobancos). “Compreender o câncer exige mais do que observar células isoladas: exige enxergar o território em que elas vivem”, afirmam.
Fonte: Metrópoles







