Duas mulheres hondurenhas entraram com uma ação contra o governo dos Estados Unidos, alegando que foram removidas do país de forma irregular junto com seus quatro filhos — três deles cidadãos americanos. A denúncia, apresentada no tribunal distrital da Louisiana pelo National Immigration Project, sustenta que o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) desrespeitou protocolos federais e impediu as famílias de exercerem o direito ao devido processo legal.
Entre os menores está um menino de quatro anos diagnosticado com câncer avançado nos rins, que estava em tratamento médico nos EUA. Os advogados afirmam que a deportação interrompeu os cuidados de saúde e colocou sua vida em perigo. A ação, registrada como JLV v. Acuna, descreve ainda que os pais foram coagidos a assinar documentos sem orientação adequada, sem tempo para consultar advogados ou familiares.
Uma das mães, identificada como Julia, relatou que foi chamada a uma checagem de rotina em abril, mas ao comparecer foi informada de que seria deportada com suas duas filhas. Segundo seu defensor, quando ela hesitou em assinar a saída de uma das crianças, um agente a teria pressionado dizendo que, caso se recusasse, a menina seria entregue a um lar adotivo. Rosario, a segunda mãe, disse que jamais imaginou que seria obrigada a deixar o país sem sequer poder organizar o futuro dos filhos.

Governo contesta acusações
O Departamento de Segurança Interna (DHS) rejeitou as alegações. Em comunicado à NBC News, a secretária-assistente Tricia McLaughlin afirmou que as mães tiveram a opção de deixar os filhos sob a guarda de responsáveis designados nos EUA, mas decidiram levá-los consigo. A nota também destacou que o ICE garante acesso a atendimento médico no país de destino e classificou como “inverídica” a acusação de que teria negado tratamento a uma criança com câncer.

Já para os advogados das famílias, a atuação do órgão expôs falhas graves. “Estamos diante de condutas não apenas ilegais, mas desumanas”, disse Sirine Shebaya, diretora do National Immigration Project. A advogada Erin Hebert, do escritório Ware Immigration, foi além: “Os agentes falharam em sua obrigação mais básica — proteger cidadãos americanos.”
Contexto de deportações em alta
O caso ocorre em meio ao aumento das deportações sob a gestão Trump, apoiadas no antigo Alien Enemies Act de 1798. De acordo com a organização Witness at the Border, mais de mil voos de remoção já foram realizados neste ano para pelo menos 62 países. O grupo também alerta que a fiscalização das operações se tornou mais difícil, pois algumas companhias aéreas passaram a ocultar os números de identificação de suas aeronaves em sistemas de rastreamento.
De volta a Honduras, as famílias relatam dificuldades para se readaptar. Julia afirma que a decisão a separou do marido e afetou emocionalmente suas filhas. Rosario resume o sentimento: “Depois de tantos anos construindo nossa vida nos Estados Unidos, ser enviada de volta assim foi devastador. Perdemos até o direito de decidir juntos como família.”







