Noventa por cento (90%) do que somos nasce antes dos seis anos de idade: você está cuidando deste alicerce?
A infância não é uma sala de espera para a vida adulta. É o canteiro de obras. A neurociência nos deu o mapa: 90% do nosso cérebro se forma até os seis anos de idade.
Neste curto espaço de tempo, a arquitetura emocional está sendo desenhada. Não estamos falando apenas de aprender as cores ou os números, mas de aprender a sentir.
Trabalhar as habilidades socioemocionais nesta fase não é “mimo”, é sobrevivência. Uma criança que aprende a nomear sua frustração hoje, será o adulto que não desiste diante do primeiro obstáculo amanhã.
A escola e a família precisam entender que a plasticidade cerebral é um presente com prazo de validade.

Investir no “sentir” hoje é garantir a saúde mental e emocional de uma vida inteira.
Comecemos pelo desenho da raiz: antes do fruto, a urgência da raiz.
Isto não é pressa de adulto, é cuidado de jardineiro.
O tempo corre entre lágrimas e risos, portanto, já que aprendemos que noventa por cento do que seremos se alicerça na infância e o reflexo dessa fase é que moldará o futuro, é preciso observar, sentir, refletir e ensinar aos pequenos a arte de encarar a vida não apenas como o tempo verbal (presente), mas como raiz que garantirá o adulto estável, capaz de interagir, ocupar-se de si e dos outros ao seu redor. O que plantamos até os seis anos de idade, sustentará o que seremos para sempre.
Pensando nisto, proponho o que chamarei de a alfabetização do coração, que na realidade, trata-se do desenvolvimento ou despertamento das habilidades socioemocionais.
Podemos iniciar enxergando a escola para além do A-B-C, como uma verdadeira oficina de seres humanos.
Durante décadas, acreditamos que a escola servia apenas para transferir dados, mas o dado não se fixa em uma mente bagunçada.
Recentemente, a educação redescobriu o óbvio: a ética, a empatia e o pensamento crítico, as nossas habilidades socioemocionais, são tão vitais quanto a matemática.

Elas são a ponte entre o saber e o agir.
Tenhamos em mente que a criança não é uma caixa vazia para encher de dados, é um universo inteiro aprendendo a pulsar.
Ensinar o A-B-C é pouco. É preciso alfabetizar o abraço, a partilha, o nó na garganta, o alfabeto do sentir.
Quando incentivamos um pequeno a compartilhar o brinquedo, estamos ensinando ética e cidadania na prática. Ao promovermos o autoconhecimento através da arte ou da música, estamos dando a ele as chaves da própria independência. Uma criança feliz e motivada aprende melhor, decide com mais confiança e, acima de tudo, transforma o ambiente ao seu redor transmitindo autoconfiança, isto é: pensamento positivo, mente sã em corpo são.

A infância bem trabalhada, forma um adulto consciente com ações libertadoras, sem prisões, sem gaiolas.
A mente torna-se celeiro de paz, de grandes realizações e acima de tudo, de liderança para a calmaria, mar sereno, sorriso pleno, braços entrelaçados, força motriz ajudando no progresso e processo de desenvolvimento saudável para outras mentes.
Afinal, inteligência sem afeto é terra seca; saber sentir é o que nos faz saber viver.
Então, mãos à obra: como cultivar a empatia e a autonomia no dia a dia? É fácil ensinar algo tão abstrato quanto a “confiança”? A minha resposta é sim: com exemplo e prática. Não se ensina empatia com uma lousa cheia, mas com uma contação de histórias que faz a criança se colocar no lugar do personagem. Com foco em palavras que edificam, em ações que elevam o eu da criança.
Claro, o primeiro passo é estar emocionalmente equilibrado para ser espelho. Depois, vem o lúdico: gincanas que estimulam a curiosidade e espaços de partilha, como o cantinho da leitura.

O resultado? Uma cultura de paz que transborda os muros da escola e prepara jovens críticos para um mundo que exige, cada vez mais, humanidade.
Por fim, penso que com estas dicas estamos edificando uma oficina de gente, na qual ética não se dita, ética se vive, empatia não se lê, empatia se exercita.
No chão da sala de aula, entre o brinquedo e o livro, trabalhamos em prol de um mundo melhor com atos pequenos, um de cada vez. É trabalho de mãos dadas, a escola que acolhe, a família que abraça.
Educar é o único jeito de manter a paz acordada e o celeiro repleto de miudezas que transmite calmaria, serenidade.
Mente que não tem ferimentos, não fere.



