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Desaprender É a Nova Vantagem Competitiva

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Aprender algo novo parece o caminho natural para evoluir. Mas existe uma parte da mudança sobre a qual se fala pouco: às vezes, antes de incorporar o novo, é preciso deixar de responder automaticamente com o velho.

Um novo sistema. Uma nova técnica de vendas. Uma nova forma de liderar. Um novo processo. A lista do que uma empresa precisa aprender nunca termina — e, em geral, é por ela que começa qualquer conversa sobre mudança.

Modelo anatômico de cérebro humano em exposição, imagem em preto e branco

Só que aprender raramente basta. Em muitos casos, o que trava a evolução não é a falta de conhecimento novo, e sim a força do comportamento antigo, que continua respondendo no automático mesmo quando a cabeça já entendeu que ele não serve mais. Desaprender, nesse sentido, é mais difícil do que aprender — e é onde a maior parte das transformações emperra.

Quando saber muito também atrapalha

Imagine um empresário que passou anos resolvendo pessoalmente praticamente tudo na empresa. Funcionou. Ele aprendeu a identificar erros rapidamente, conhece os clientes, domina a operação e sabe exatamente como quer que as coisas sejam feitas.

Agora a empresa cresceu e ele precisa delegar. Faz cursos. Cria funções. Contrata pessoas competentes. Diz, com sinceridade, que quer uma equipe mais autônoma. Mas, diante do primeiro erro, retoma a tarefa. Sem perceber, tenta construir uma nova forma de administrar enquanto continua respondendo com o comportamento que foi reforçado durante anos.

Ele não precisa apenas aprender a delegar. Precisa desaprender a ser a resposta para tudo.

O cérebro não apaga: ele constrói novas respostas

Falar de “desaprender” não significa apagar uma informação do cérebro como quem deleta um arquivo. A neuroplasticidade mostra que o cérebro se modifica com a experiência e a aprendizagem, e a flexibilidade cognitiva e comportamental permite ajustar respostas quando as demandas do ambiente mudam. O circuito antigo não desaparece: ele ganha concorrência.

Na prática, mudar exige mais do que conhecer uma nova maneira de agir. É preciso perceber quando o comportamento antigo aparece e praticar uma resposta diferente — repetidas vezes, em situações reais. É por isso que entender uma mudança não significa, automaticamente, conseguir executá-la.

Instrutor apresenta conteúdo para equipe sentada à mesa em treinamento corporativo

Na empresa, isso acontece o tempo todo. O líder sabe que precisa delegar, mas centraliza. Sabe que precisa acompanhar indicadores, mas decide pela sensação. Sabe que precisa desenvolver pessoas, mas, diante da pressão, prefere fazer sozinho porque é mais rápido. O conhecimento novo chegou; o comportamento antigo permaneceu.

Desaprender também é uma decisão empresarial

O primeiro passo é escolher um comportamento que já foi importante para o crescimento da empresa, mas que talvez não seja adequado para a fase atual. E trocar a pergunta de lugar: em vez de começar por “o que preciso aprender?”, começar por “o que preciso parar de repetir?”.

Depois, escolha uma resposta diferente e pratique-a conscientemente quando a situação aparecer de novo. Alguns exemplos concretos:

  • delegar sem tomar a tarefa de volta na primeira dificuldade;
  • consultar um indicador antes de decidir, em vez de confiar só na leitura do momento;
  • seguir o processo combinado em vez de improvisar sob pressão;
  • permitir que alguém da equipe encontre a solução antes de oferecê-la.

Nenhuma dessas trocas acontece por insight. Acontece por repetição — e por tolerância ao desconforto de não fazer do jeito antigo, que era mais rápido e mais confortável.

Empresas precisam aprender continuamente. Mas existe uma competência igualmente importante: reconhecer quando aquilo que nos trouxe até aqui não é mais aquilo que nos levará adiante. Em um mercado que muda cada vez mais rápido, desaprender pode ser uma das formas mais inteligentes de continuar aprendendo.

Fonte científica: Uddin, L. Q. (2021). Cognitive and behavioural flexibility: neural mechanisms and clinical considerations. Nature Reviews Neuroscience, 22, 167–179.

Isabel Oliveira

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